João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – 15 de Fevereiro de 2016

PEQUENOS NOTÁVEIS

 

O tema abordado hoje é “ciclídeos anões”, o qual inicia uma série de artigos sobre os “Pequenos Notáveis”; assim como todos os outros artigos que escrevo, tratará de uma ótica pessoal sobre o tema, baseado no que se publica e se conversa no hobby. E por que a escolha? Pela graça. Não por serem uma piada, nem por serem feios ao ponto de causarem risada. A graça de sua beleza, variedade e complexidade.

Eu como fã de ciclídeos (família Cichlidae), não poderia deixar de falar sobre esse “clube” tão especial. Quando menciono “anões”, não falo de deformidades físicas ou fenômenos que deixam os peixes pequenos, mas sim daqueles cujo tamanho adulto é diminuto. O grupo dos ciclídeos anões não trata de nenhuma identificação taxonômica, é uma nomenclatura informal dada por hobbistas como eu e você, os quais viram neles a beleza que quero apresentar. Assim, estão incluídos aqui todos aqueles ciclídeos, cujo tamanho do peixe adulto não ultrapasse 13cm.

O pequeno tamanho também não faz jus à amplitude que se distribuem pelo mundo, vamos encontrá-los em vários países e diferentes continentes. Dos gêneros sul-americanos que comportam espécies de ciclídeos anões, algo entre 14 gêneros, destacaria: ApistogrammaDicrossusTaenicaraLaetacara,Nannacara,Crenicichla e Mikrogeophagus; dos inúmeros africanos, tanto do leste como do oeste, evidenciaria:Nanochromis e Pelvicachromis (ambos do leste), mbunas do gênero Pseudotropheus, conchícolas do gêneroNeolamprologus. E está aqui também o único ciclídeo asiático, do gênero Etroplus. Pelos gêneros, você reconheceu algum famoso? Já teve algum? Provavelmente sim, como veremos mais à frente na descrição de algumas espécies. Ser um ciclídeo anão não exclui a espécie de pertencer a outras nomenclaturas dadas pelos aquaristas; por exemplo, o Neolamprologus brevis pode ser considerado: conchícula, ciclídeo africano e ciclídeo anão…é o tipo de cara que adora frequentar diferentes clubes – eu ainda o incluiria como membro honorário do clube da Boa Vizinhança, de tão bom companheiro que este peixe é (às vezes até duvido que é um ciclídeo).

 

PEIXE PEQUENO, AQUÁRIO PEQUENO: NÃO NECESSARIAMENTE.

Para muitos casos nesta categoria, poderemos verificar que um aquário pequeno é possível, pois têm comportamento moderado e contentam-se com territórios pequenos, para outros, porém, não. Não é difícil de aceitar que num universo imenso de pequenas criaturas alguns se rebelariam às regras que tentamos criar. Acredito que em nenhum ramo deste hobby escapamos de aprender sobre as espécies que queremos colocar em nossos aquários. Parece bobagem? Mas não é. O humor e a saúde dos peixes dependerão muito desse nosso entendimento.

Sabemos, por exemplo, que os ciclídeos, de forma ampla e geral, são pais eficientes no cuidado com sua prole. Quando um casal se forma num aquário, podemos ter peixes mortos ou bastante machucados, uma vez que a agressividade dos reprodutores é consideravelmente aumentada. Outros, entretanto, são agressivos o tempo todo; o Pseudotropheus demasoni POMBO – peixe maravilhoso – possui uma das agressividades mais exacerbadas, especialmente considerando seu tamanho máximo: cerca de 10cm. Eu jamais recomendaria um aquário menor de 200 litros para tê-lo; o comportamento do macho agride, inclusive, as fêmeas, que precisam compor um harém e o aquário precisa ter inúmero locais de esconderijo. No mesmo lago, seu primo próximo, o P. saulosi, embora o macho tenha o mesmo padrão de cor do P. demasoni, sua agressividade é desproporcionalmente menor. Mas faço um aparte para dizer que ainda são considerados peixes agressivos e que é bom ter espaço para resguardar as fêmeas. Detalhes assim, essenciais para a prática do aquarismo responsável, é que nos fazem optar por uma espécie e não por outra, o número de indivíduos no aquário e também os companheiros de tanque.

Mas eu não tenho muito espaço na minha casa, o que faço então? Conheça as espécies que podem se adaptar bem em espaços menores. Por falar em aquários pequenos, é importantíssimo frisar que, por serem de menor volume, são mais suscetíveis às mudanças; não deixe de adquirir um aquecedor termostato que você possa confiar. De forma geral, os aquários pequenos possuem melhor resultado com espécies sul-americanas do gênero Apistogramma (que receberão um artigo específico), Nannacara,DicrossusTaenicaraou Mikrogeophagus. São os únicos sul-americanos que servem? Não, são somente exemplificações do que se vê entre os preferidos do público.

 

PEDRA, PLANTA, BARCO NAUFRAGADO E O QUE MAIS PRECISO PRO AQUÁRIO?

Quem acompanha estes artigos, sabe da preferência dada aos ambientes naturais, todavia, caso seu gosto ou propósito incorpore outros tipos de decoração, o conselho é: adquira itens próprios para aquário, em que a empresa garanta que são atóxicos e sem arestas que possam ferir os peixes. No entanto, isso não resume a preocupação com o layout e a qualidade da água.

Veremos à frente o quão diverso é o ambiente dos ciclídeos anões e as condições de água exigidas. Num país como o nosso, de dimensões continentais, é fácil pensar que os parâmetros da água da sua casa não sejam os mesmos do encotrando em outras regiões. Para isso, saiba que existem produtos, chamados corretores de pH e também “buffers” , que atuam na água, modelando o pH para níveis adequados para os peixes que queremos manter saudáveis. Neste caso, se sua água insiste em se manter dura e alcalina, procure marcas que lhe deem a segurança de modificar e manter o pH nos níveis desejados, como os produtos da Seachem, American Cichlid salt, Cichild lake salt, Discus buffer. O mesmo valerá para o caso do aquário possuir um belo jardim nos fundos, nutrientes e iluminação serão necessários para manter as plantas vigorosas.

 

ILUSTRES ARAUTOS DOS CICLÍDEOS ANÕES

Agora vamos provar como você já conhecia alguns dos representantes deste grupo. Relembro que vamos pular os Apistos, pois eles terão sua vez no próximo artigo.

 

MIKROGEOPHAGUS RAMIREZI (RAMIREZI)

Primeiramente classificado como Apistogramma ramirezi, já passou por vários nomes, incluindo os gêneros: PapiliochromisPseudoapistogrammaPseudogeophagus, até chegar a Mikrogeophagus. Um astro dos aquários comunitários, por ser pacífico e colorido, seu tamanho não passa dos 7cm e pode viver muito bem em aquários médios: 60x40x30 cm (72 litros). Um casal pode ser inserido sem problemas, mas adverte-se para o fato que juntar dois indivíduos ainda não identificados pode gerar problema, pois o ramiresi é ligeiramente agressivo com peixes da mesma espécie.

Advém da bacia do Rio Orinoco, abrangendo a Venezuela e a Colômbia. Isso lhe confere parâmetros de água tropicais, que neste caso são: pH entre 5.0 e 6.0, água “mole” (mas cujos registros mostram que é bem variável: dH 5 – 12) e temperatura alta (27°C – 30°C). O ambiente em que vive é de leito arenoso ou lamoso, vivendo próximo ao substrato – possivelmente daí que calhe o significado de seu nome científico (tá fora de ordem para entendermos): pequeno (Mikro-) comedor (-phagus) de terra (geo)…tendo o hábito de forragear fundo à procura de comida. Por ser de rio, plantas, pedras e troncos são bem aceitos pela espécie.

Como todos os ciclídeos, esta espécie é ovípara, sendo que a fêmea realiza o cuidado parental. Por falar nisso, é comum encontrar relatos de que eles não desempenham bem esta tarefa, por terem sido larga e artificialmente reproduzidos, perdendo um pouco desta característica. Adiciona-se a isso o fato de que a prole se recusa a manter-se numa nuvem, o que facilitaria aos pais proteger, e em alguns dias ele ficam mais dispersos, facilitando a predação por outros peixes.

 

PELVICHACHROMIS PULCHER (KIBRENSIS)

Outro famoso que vive muito num aquário do mesmo tamanho de aquário citado anteriormente (talvez um pouquinho maior) é o Kribensis ou Krib, para os íntimos. Ele tem origem nos rios do oeste africano (sudeste da Nigéria e oeste de Camarões), dentre eles o rio Niger, com relatos de ocorrência em áreas estuarinas destes países. Ainda assim, é um peixe de água doce, mole, pH variante (entre 5.0 e 8.0) e temperatura tropical (24º e 25ºC).

Por viver próximo ao substrato, no ambiente natural, alimenta-se de vermes, crustáceos e insetos, e tem hábitos de escavar para fazer sua morada e local de reprodução. São famosas as fotos de aquaristas que enterram até a metade vasos de barro, que os Kribs adotam como caverna e lá depositam seus ovos. Os machos (11cm) são bem maiores que as fêmeas (6-7cm) e nesta espécie é a fêmea a mais colorida (na dúvida, verifique as nadadeiras pélvicas, que no macho são mais longas e afiladas na ponta). Sua agressividade é mediana, mas aumenta nesta época. Você pode providenciar troncos e moitas de plantas que se enraízam fácil para ajudar a proteger os peixes e caracterizar o aquário.

 

ETROPLUS MACULATUS (MEXERICA)

Da África, voamos para a Ásia, para encontrar o Mexerica – não sei afirmar a origem do nome, mas acredito que seja por ter exemplares laranjas como a fruta. Este peixe pacífico, que chega aos 8-9cm, deriva de águas doces (mas frequenta as estuarinas) da Índia e Sri Lanka, com um pH alto (entre 8.0 e 9.0), água ligeiramente dura e temperatura entre 20 e 25ºC. Seu ambiente possui raízes e plantas, locais onde gosta de estar e que usa para se alimentar (alevinos de peixes, zooplâncton e algas).

Não aparenta diferenças entre os sexos. Desova no substrato, em suaves depressões escavadas pelos pais, sendo que seus filhotes estão sempre acompanhados de um dos pais; se um está comendo o outro está de olho!

 

Nesta última escala, agora na América do Sul, trago peixes que se você não conhece, deveria conhecer, pois são magníficos.

 

LAETACARA CURVICEPS (CURVICEPS)

Antes classificado como Aequidens curviceps, este peixe é encontrado na bacia Amazônica, no Brasil, em rios rasos que trançam pelas matas, seu ambiente é formado por uma infinidade de folhas e troncos; isso ajuda também para que fiquem mais à vontade, pois é dito que não costumam ser animais que sobrem para pegar alimento, ficam ali esperando algo chegar mais perto. O pH ligeiramente ácido (embora tenha achado uma variação interessante, entre 5.2 e 7.5), água mole e temperatura tropical, entre 22 e 26ºC.

Sem distinção aparente entre os sexos, olhos mais cuidadosos podem reparar a diferença de tamanho, onde machos são maiores. Desovam, em superfícies, centenas de ovos aderentes e como um bom ciclídeos fazem a defesa da região e da prole de maneira bem contundente. O local escolhido pode ser uma rocha, um tronco e até mesmo uma folha grossa de planta, sendo limpo antes do ato.

 

TAENIACARA CANDIDI

Único representante do gênero. Trata-se de um peixe pequeno (5-6cm), que pertencente a um tipo de condição que chamamos de “black water” (água negra), devido à coloração dada pela matéria orgânica em decomposição (folhas e troncos). Ocorre no Brasil, nos rios Negro, Amazonas e Tapajós e é facilmente confundida, por aqueles com pouca experiência, com o Apistogramma agassizii, por ter a cauda em forma de lança – isso que falei é praticamente uma blasfêmia para quem conhece os peixes.

Considerado de difícil reprodução em cativeiro, a começar pelos parâmetros de água: extremamente mole e ácida (muitos hobbistas se utilizam de água deionizada, troncos e folhas para tentar reproduzir o ambiente de “black water”). A fêmea toma conta da prole, mantendo-a numa reentrância qualquer, que pode ser num tronco ou num vaso de cerâmica emborcado para baixo e com fendas que permitam a passagem dos adultos.

 

NANNACARA ANOMALA (GOLDENEYE CICHLID)

Esta bela espécie sul-americana, que fica em torno dos 7cm (nos machos, que são maiores), é encontrada em baixios costeiros, dos rios Aruka (Guiana) e Marowijne (Suriname). É uma região tropical, cujo pH varia entre 6.0 e 8.0, a dureza tem boa variação (dH: 5 a 19), embora prefiram água mole, e a temperatura fica entre 22º e 25ºC. O peixe é carnívoro, sendo seu prato principal constituído de vermes, crustáceos e insetos.

Considerada uma espécie de reprodução fácil, bastando deixar as condições da água favoráveis e colocar num aquário (80cm de comprimento, aproximadamente) um macho para 2 ou 3 fêmeas – machos, além de mais coloridos, costumam ser maiores e suas nadadeiras, dorsal e anal, prolongam-se bastante; na época reprodutiva as fêmeas escurecem, num padrão xadrez. Em grupos com mais de um macho, os “dominados” podem se portar como fêmeas, em termos de tamanho e coloração.

 

De uma forma geral ciclídeos anões tendem a ser menos agressivos, se comparado aos primos que possuem corpo e força suficientes para causar danos aos outros; essa agressividade, normalmente, volta-se com mais gosto para seus congêneres. Muitos deles são excelentes membros para aquários comunitários ou mesmo plantados, têm cores lindas, comportamentos atraentes, ou seja, personalidade. São peixes que agradam hobbistas, mundo afora e não tenho dúvida que agradará muitos que ainda não os conhecem.

Bem, embora este artigo pareça cumprido demais, ele mal dá o gostinho sobre o real mundo dos ciclídeos anões. Esta é apenas uma pincelada. Há muito mais a ser dito. Faltam ainda inúmeras espécies magníficas e interessantíssimas…mas aquarismo não se experimenta lendo apenas, precisamos pôr em prática! Espero que estas palavras tenham trazido alguma informação útil ou ao menos um gostinho de “quero mais”, que lhe faça pesquisar, estudar, questionar. Agradeço a leitura!

SOBRE O AUTOR

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo SARLO